O Homem que confundiu a reunião com um leão

Por que o estresse crônico faz seu corpo tratar prazos, cobranças e decisões como ameaças de sobrevivência.

3–5 minutos

Duas horas da manhã. Você está na cama, exausto, mas o cérebro não desliga. Amanhã você tem uma reunião decisiva ou o fim de um prazo importante, e o pensamento que não sai da sua cabeça é: “se eu não dormir agora, amanhã vou estar muito cansado e não vou conseguir entregar!”. O paradoxo é que essa tensão é justamente o que impede o sono, criando um círculo vicioso onde o cansaço alimenta a ansiedade, que por sua vez destrói a qualidade do descanso.

Seu corpo está usando um sistema de sobrevivência projetado para emergências físicas agudas para responder a problemas psicológicos de longo prazo. Estamos preparados para lidar com curtos momentos de estresse. A negociação de um negócio, uma reunião importante, a apresentação de um relatório, etc fazem parte do dia a dia. Esse tipo de estresse é fundamental para o nosso desenvolvimento. Consegue lembrar de alguma situação estressante mas que acabou gerando uma vitória importante? Pois é, o que nos causa dano é a nossa capacidade de manter esse sistema de alerta ativado por muito tempo. Sem pausas, sem descansos, com mais cobranças, com demandas crescentes… 

Em algumas situações, as demandas constantes podem ser percebidas como estressores que ativam nosso fisiológico para uma luta sem fim. Encarar o dia a dia como um leão que quer tirar a sua vida não é uma boa estratégia, caso você queira ter saúde mental. A maneira como você maneja o estresse diário acaba interferindo na sua qualidade de vida e te mantém apto ou inapto para continuar crescendo. 

O Custo da “Liquidação de Ativos”

Fisiologicamente, o estresse crônico bagunça a sua gestão metabólica. Durante uma emergência, o corpo decide liquidar seus ativos: ele prioriza a sobrevivência imediata em detrimento da manutenção de longo prazo. 

O custo disso é alto. Se você vive cada dia como se fosse uma emergência, deixa de fazer investimento em projetos de longo prazo. O corpo interrompe a digestão, a reparação de tecidos e o sistema imunológico. O resultado é uma fadiga persistente e um sistema cardiovascular sobrecarregado. Uma hora a conta chega. 

Imagine uma mangueira de jardim sendo usada com a pressão de um hidrante de incêndio; eventualmente, as paredes dos vasos sanguíneos se desgastam e se rompem, criando o cenário ideal para placas de gordura e infartos.

O que fazer?

Preste atenção em como você tem definido os seus problemas. Ao tratar uma reunião importante como um ataque de um leão faminto você pode estar sobrecarregando o seu sistema de luta ou fuga. 

É muito comum distorcermos a realidade e torná-la mais ameaçadora do que de fato ela é. Nosso viés para o negativo tende a ser forte. 

Tente se perguntar:

  • “O que exatamente está ameaçado aqui?”
  • “Estou diante de um problema que precisa ser resolvido agora ou estou antecipando algo que pode acontecer?”
  • “O que está sob meu controle nas próximas horas?”
  • “Minha preocupação está produzindo alguma ação útil ou apenas mantendo meu organismo ativado?”

Claro que pode acontecer de você estar diante de uma situação de grande risco. Mesmo nestas situações, as perguntas acima tendem a ativar áreas mais “racionais” do seu cérebro que vão te ajudar e pensar em soluções mais adaptativas do que ficar somente rolando sem dormir na cama.

Este tipo de análise é treinável e requer uma boa capacidade de controle inibitório.

Aprender a reconhecer quando é hora de agir e quando é hora de permitir que o corpo saia do estado de alerta também faz parte de uma boa gestão do estresse. Existem uma série de estratégias que podemos tentar utilizar para te ajudar a reduzir a ativação do seu estado de alerta. 

Se o estresse tem afetado seu sono, seus relacionamentos ou a maneira como você trabalha, a psicoterapia pode ser um espaço para compreender esse funcionamento e desenvolver estratégias mais adequadas para lidar com ele. 

Caso queira conhecer melhor como funciona o meu trabalho, você pode acessar a página sobre psicoterapia aqui no site.

Uma ressalva importante!

Há pessoas com cargas de trabalho realmente excessivas, conflitos constantes, insegurança financeira, ambientes profissionais abusivos ou jornadas incompatíveis com recuperação adequada. Nesses casos, técnicas individuais ajudam até certo ponto. Um bom plano de carreira, que esteja mais sob o seu controle, pode ser mais útil no médio/longo prazo.

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